quinta-feira, 13 de novembro de 2014
Objectos encontrados
"Ele vai continuando a fazer a sua exploração à casa cujas chaves lhe deste, o Leitor. Há uma quantidade de coisas que acumulas em teu redor: leques, postais, frasquinhos, colares pendurados na parede. Mas cada objecto visto de perto revela-se especial, de certo modo inesperado. A tua relação com os objectos é confidencial e selectiva: só as coisas que sentes como tuas se tornam tuas: é uma relação com a corporalidade das coisas, e não com uma ideia intelectual ou afectiva que substitua o acto de vê-las e tocá-las. E uma vez assimilados pela tua pessoa, marcados pela tua posse, os objectos deixam de ter o ar de estar ali por acaso, assumem um significado como partes de um discurso, como uma memória feita de sinais e distintivos. És possessiva? Talvez não haja ainda elementos suficientes para o dizer: por agora pode-se dizer que és possessiva em relação a ti mesma, que te agarras aos sinais em que identificas qualquer coisa de ti, temendo perder-te com eles".
Italo Calvino, Se numa noite de Inverno um viajante
sem título - objectos mágicos, 2012; grafite sobre papel, 120 x 150 cm.
untitled - magic objects, 2012; graphite on paper, 120 x 150 cm.
sem título - um jardim italiano dentro de uma casa, e em cima de um tapete, 2012; grafite sobre papel, 120 x 150 cm.
untitled - an italian garden inside a house, and above a rug, 2012; graphite on paper, 120 x 150 cm.
Objectos encontrados - Found objects
Objectos encontrados - a partir das reservas do Museu Leonel Trindade / Found objects - from the storage rooms of Leonel Trindade Museum.
Paços Galeria Municipal, Torres Vedras
9 Novembro 2012 - 5 Janeiro 2013.
Com o projecto de fazer uma exposição para a Galeria Municipal surgiu a possibilidade de trabalhar a partir do acervo do Museu Municipal Leonel Trindade: explorando eu já há algum tempo a temática da natureza-morta, seria certamente curioso ter contacto com objectos que de outro modo não me seriam acessíveis.
As suas colecções variadas surpreenderam-me: além dos núcleos arqueológicos pré-históricos e ligados à Guerra Peninsular (as minhas memórias mais antigas do Museu), encontrei um vasto espólio ligado ao passado industrial da região, arte sacra, azulejaria, mobiliário e artes decorativas provenientes da Casa Jaime Umbelino, uma fantástica e vasta colecção de brinquedos, até aos objectos recolhidos em escavações no espaço onde esta exposição se apresenta. Talvez no fundo todos os Museus, como todas as colecções, acabem por ter este aspecto em comum: de serem como pequenos gabinetes de curiosidades em que o objecto de qualidade artística convive tanto com o objecto histórico, como com o objecto com discutível interesse que por qualquer motivo por lá também se encontra.
É uma pequena parte desta colecção que aqui revelo na forma de composições vagamente narrativas e de confrontos que procuram a criação de novos sentidos: a evocação de algo para além dos objectos nele representados. Questões presentes na minha investigação como a possibilidade de uma natureza-morta ser simultaneamente um retrato ou uma paisagem, ou como diferenças de escala entre objectos podem criar uma enorme sensação de estranheza tiveram com este projecto uma continuidade.
Juntamente com o trabalho criado especificamente para esta exposição mostram-se outros três projectos anteriores onde está presente esta mesma pesquisa em torno da representação, bem como da investigação acerca do que é uma colecção, o que pretende, e o que nos diz sobre ela e sobre nós.
Paços Galeria Municipal, Torres Vedras
9 Novembro 2012 - 5 Janeiro 2013.
Com o projecto de fazer uma exposição para a Galeria Municipal surgiu a possibilidade de trabalhar a partir do acervo do Museu Municipal Leonel Trindade: explorando eu já há algum tempo a temática da natureza-morta, seria certamente curioso ter contacto com objectos que de outro modo não me seriam acessíveis.
As suas colecções variadas surpreenderam-me: além dos núcleos arqueológicos pré-históricos e ligados à Guerra Peninsular (as minhas memórias mais antigas do Museu), encontrei um vasto espólio ligado ao passado industrial da região, arte sacra, azulejaria, mobiliário e artes decorativas provenientes da Casa Jaime Umbelino, uma fantástica e vasta colecção de brinquedos, até aos objectos recolhidos em escavações no espaço onde esta exposição se apresenta. Talvez no fundo todos os Museus, como todas as colecções, acabem por ter este aspecto em comum: de serem como pequenos gabinetes de curiosidades em que o objecto de qualidade artística convive tanto com o objecto histórico, como com o objecto com discutível interesse que por qualquer motivo por lá também se encontra.
É uma pequena parte desta colecção que aqui revelo na forma de composições vagamente narrativas e de confrontos que procuram a criação de novos sentidos: a evocação de algo para além dos objectos nele representados. Questões presentes na minha investigação como a possibilidade de uma natureza-morta ser simultaneamente um retrato ou uma paisagem, ou como diferenças de escala entre objectos podem criar uma enorme sensação de estranheza tiveram com este projecto uma continuidade.
Juntamente com o trabalho criado especificamente para esta exposição mostram-se outros três projectos anteriores onde está presente esta mesma pesquisa em torno da representação, bem como da investigação acerca do que é uma colecção, o que pretende, e o que nos diz sobre ela e sobre nós.
Uma montanha de coisas - desenhos
sem título - o pequeno túmulo, 2012; grafite sobre papel, 100 x 140 cm.
untitled- the little tomb, 2012; graphite on paper, 100 x 140 cm.
sem título - superfície quase plana, 2012; grafite sobre papel, 100 x 140 cm.
untitled - almost flat surface, 2012; graphite on paper, 100 x 140 cm.
sem título - composição abstracta com predela, 2012; grafite sobre papel, 100 x 140 cm.
untitled - abstract composition with predella, 2012; graphite on paper, 100 x 140 cm.
um comentário - a comment - Alexandre Pomar
http://alexandrepomar.typepad.com/alexandre_pomar/2012/11/jo%C3%A3o-francisco-3.html
sem título - cabeças à volta de uma mesa, 2012; grafite sobre papel, 100 x 140 cm.
untitled-heads around a table, 2012; graphite on paper, 100 x 140 cm.
sem título - o espelho, 2012; grafite sobre papel, 100 x 140 cm.
untitled - the mirror, 2012; graphite on paper, 100 x 140 cm.
Uma montanha de coisas - José Luís Porfírio, Expresso
sem título - o pequeno cemitério, 2012; óleo sobre tela, 120 x 160 cm.
untitled - the small graveyard, 2012; oil on canvas, 120 x 160 cm.
A escada de Jacob está gasta, tem degraus partidos, mal remendados, e encosta-se a um muro de madeira, suporte de várias coisas, entre as quais uma tela do avesso; lá em baixo estão os anjos de Paul Klee, por ventura aqueles mesmos que, em incessante vaivém, desgastaram e quebraram a escada. Com estas palavras tento descrever um desenho, poderia ser uma pintura, dos mais sóbrios, dos mais simples, com menos coisas acumuladas de João Francisco (n.1984), obra de uma exposição muito justamente intitulada "Uma montanha de coisas". Este artista é um respigador de coisas, vestígios, restos, tralha kitsch da feira da Ladra, salvados de praia, e também de memórias visuais, ou de citações, conforme os casos, da arte ocidental e portuguesa. Uma outra escada bem semelhante à primeira, só que deitada, funciona intencionalmente como uma predela enquadrando obras: Eloy, Pinturicchio, Klee, do Velho Picasso bem como o papagaio de Flaubert (?), enquanto a parte superior do desenho está repleta de restos e de fragmentos de grelhas e caixas. A referência ao tempo e ao seu trabalho sobre a montanha das coisas, e sobre essas coisas especiais (?) que são as obras de arte, é permanente, transitando de trabalho para trabalho com uma ironia séria. Além dos mestres rememorados a arte pode ser uma manta de retalhos justamente interpretada como uma pintura não figurativa e o quadro, ou melhor, enquanto a tela do avesso é uma coisa entre as coisas e , se lermos bem os não títulos deste artista, sempre disfarçados entre parênteses curvos, essa tela funciona como uma lápide num cemitério de abandonos que tanto pode abrir-se para um somatório de inutilidades, como para o que resta do nosso museu imaginário.
José Luis Porfírio (Atual - Expresso, 22 de Setembro de 2012).
Uma montanha de coisas - A mountain of things
sem título - as três pinturas abstractas - 2012; óleo sobre tela, 120 x 160 cm.
untitled - the three abstract paintings - 2012; oil on canvas, 120 x 160 cm.
sem título - o connoisseur - Bouvard e Pécuchet, 2012; óleo sobre tela, 120 x 160 cm.
untitled - the connoisseur - Bouvard and Pécuchet, 2012; oil on canvas, 120 x 160 cm.
sem título - imagem dupla - um espelho, 2012; óleo sobre tela, 100 x 140 cm.
untitled - double image - a mirror, 2012; oil on canvas, 100 x 140 cm.
Subscrever:
Mensagens (Atom)














